quarta-feira, 4 de junho de 2008

Teste. Antônio

terça-feira, 25 de março de 2008

segunda-feira, 24 de março de 2008



Como professor devo saber que sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino. Exercer a minha curiosidade de forma correta é um direito que tenho como gente e a que corresponde o dever de lutar por ele, o direito à curiosidade. Com a curiosidade domesticada posso alcançar a memorização mecânica do perfil deste ou daquele objeto, mas não o aprendizado real ou o conhecimento cabal do objeto. A construção ou a produção do conhecimento do objeto implica o exercício da curiosidade, sua capacidade crítica de “tomar distância” do objeto, de observá-lo, de delimitá-lo, de cindi-lo, de “cercar” o objeto ou fazer sua aproximação metódica, sua capacidade de comparar, de perguntar.
Estimular a pergunta, a reflexão crítica sobre a própria pergunta, o que se pretende com esta ou aquela pergunta em lugar da passividade em face das explicações discursivas do professor, espécies de respostas a perguntas que não foram feitas. Isso não significa realmente que devamos reduzir a atividade docente, em nome da defesa da curiosidade necessária, a puro vai-e-vem de perguntas e respostas, que burocraticamente se esterilizam. A dialogicidade não nega a validade de momentos explicativos, narrativos em que o professor expõe ou fala do objeto. O fundamental é que professor e alunos saibam que a postura deles, do professor e dos alunos, é dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não-apassivada, enquanto fala ou enquanto ouve. O que importa é que professor e alunos se assumam epistemologicamente curiosos.
[...]
O exercício da curiosidade convoca a imaginação, a intuição, as emoções, a capacidade de conjecturar, de comparar, na busca da perfilização do objeto ou do achado de sua razão de ser. Um ruído, por exemplo, pode provocar minha curiosidade. Observo o espaço onde parece que se está verificando. Aguço o ouvido. Procuro comparar com outro ruído cuja razão de ser já conheço. Investigo melhor o espaço. Admito hipóteses várias em torno da possível origem do ruído. Elimino algumas até que chego a sua explicação.
Satisfeita uma curiosidade, a capacidade de inquietar-me e buscar continua em pé. Não haveria existência humana sem a abertura de nosso ser ao mundo, sem a transitividade de nossa consciência.
[...]
Um dos saberes fundamentais à minha prática educativo-crítica é o que me adverte da necessária promoção da curiosidade espontânea para a curiosidade epistemológica.


Paulo Freire. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. pp. 85, 86, 88.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Chomsky, muito além de lingüista, é um inquieto “reclamador” das questões sociais, políticas, econômicas. E o faz de modo indissociado, como são os contextos. Propala o desenvolvimento da organização e da autonomia das camadas marginalizadas ou manipuladas dos sistemas sociais, numa proposição humanista pós-estruturalismo. Suas idéias contra a sociedade de massa, a manipulação dos sistemas de comunicação, assim como seu enfoque sobre as relações de poder vão contornando e conformando suas análises. Falando em análise, algumas considerações interessantes de Chomsky* sobre a “exclusividade” do saber analítico dos pensadores e acadêmicos:

“Para analisar as ideologias, basta um pouco de abertura de espírito, de inteligência e um cinismo saudável. Todo o mundo é capaz de fazê-lo. Temos de recusar que só os intelectuais dotados de uma formação especial são capazes de trabalho analítico. Na realidade, isso é o que alguns nos querem fazer crer...”.

Outra questão, e que interessa aqui por ser precípua à educação, em especial à modalidade a distância (ainda que o texto seja anterior ao boom da EAD), diz respeito à autonomia, à ação do indivíduo aprendente no seu processo de crescimento cognitivo - sua busca incessante de apreensão da realidade, do seu contexto social, da cultural, das relações econômicas. De novo o autor estadunidense:

“[...] e principalmente “uma política de comunicações democrática, que deveria tentar desenvolver meios de expressão e interação que reflitam os interesses e as preocupações da população em geral, fomentem sua auto-educação e sua ação individual e coletiva.” (grifo meu)

Ao apontar o pseudoconfinamento do conhecimento nos currais da academia e da ciência, o pensador sabe que isso é apenas uma figura de retórica. E a desvela apontando a inapreensibilidade do saber, que está muito além do conhecimento acumulado, mas que se deve antes e acima à potencialização das capacidades analítico-reflexivas. E esclarece que não há pré-condição ou requisito para desenvolver-se intelectualmente e, afinal, situar-se de modo paritário na gestão das políticas sociais, interpessoais.

* CHOMSKY, Noam. In: SILVA, Jorge. Noam chomsky e as ilusões necessárias. Texto publicado no Anexo Cultural do jornal A Notícia (Joinville/SC), 1 de maio de 1996. http://www.igutenberg.org/jorge.html