Chomsky, muito além de lingüista, é um inquieto “reclamador” das questões sociais, políticas, econômicas. E o faz de modo indissociado, como são os contextos. Propala o desenvolvimento da organização e da autonomia das camadas marginalizadas ou manipuladas dos sistemas sociais, numa proposição humanista pós-estruturalismo. Suas idéias contra a sociedade de massa, a manipulação dos sistemas de comunicação, assim como seu enfoque sobre as relações de poder vão contornando e conformando suas análises. Falando em análise, algumas considerações interessantes de Chomsky* sobre a “exclusividade” do saber analítico dos pensadores e acadêmicos:
“Para analisar as ideologias, basta um pouco de abertura de espírito, de inteligência e um cinismo saudável. Todo o mundo é capaz de fazê-lo. Temos de recusar que só os intelectuais dotados de uma formação especial são capazes de trabalho analítico. Na realidade, isso é o que alguns nos querem fazer crer...”.
Outra questão, e que interessa aqui por ser precípua à educação, em especial à modalidade a distância (ainda que o texto seja anterior ao boom da EAD), diz respeito à autonomia, à ação do indivíduo aprendente no seu processo de crescimento cognitivo - sua busca incessante de apreensão da realidade, do seu contexto social, da cultural, das relações econômicas. De novo o autor estadunidense:
“[...] e principalmente “uma política de comunicações democrática, que deveria tentar desenvolver meios de expressão e interação que reflitam os interesses e as preocupações da população em geral, fomentem sua auto-educação e sua ação individual e coletiva.” (grifo meu)
Ao apontar o pseudoconfinamento do conhecimento nos currais da academia e da ciência, o pensador sabe que isso é apenas uma figura de retórica. E a desvela apontando a inapreensibilidade do saber, que está muito além do conhecimento acumulado, mas que se deve antes e acima à potencialização das capacidades analítico-reflexivas. E esclarece que não há pré-condição ou requisito para desenvolver-se intelectualmente e, afinal, situar-se de modo paritário na gestão das políticas sociais, interpessoais.
* CHOMSKY, Noam. In: SILVA, Jorge. Noam chomsky e as ilusões necessárias. Texto publicado no Anexo Cultural do jornal A Notícia (Joinville/SC), 1 de maio de 1996. http://www.igutenberg.org/jorge.html
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Excertos do texto proferido por Paulo Freire na abertura do Seminário Nacional sobre Educação e Reforma Agrária, Chile, 1968. O que nos aponta o texto converge para a "discussão" sobre inatismo, conhecimento, inteligência, aprendizagem, ... que travamos na aula do ESPEAD nesta noite (4/dez).
Considerações em torno do ato de estudar[1]
Paulo Freire
Revista Espaço Acadêmico, n.º 33, fev/2004, mensal, ISSN 1519.6186
http://www.espacoacademico.com.br/033/33pc_freire.htm
[...]
Estudar é, realmente um trabalho difícil. Exige de quem o faz uma postura crítica sistemática. Exige disciplina intelectual que não se ganha a não ser praticando-a.
[...]
Numa visão crítica, as coisas se passam diferentemente. O que estuda se sente desafiado pelo texto em sua totalidade e seu objetivo é apropriar-se de sua significação profunda.
Essa postura crítica, fundamental, indispensável ao ato de estudar, requer de quem a ele se dedica:
a) Que assuma o papel de sujeito desse ato.
[..]
Estudar seriamente um texto é estudar o estudo de quem, estudando, o escreveu. É perceber o condicionamento histórico-sociológico do conhecimento. É buscar as relações entre o conteúdo em estudo e outras dimensões do conhecimento. Estudar é uma forma de reinventar, de recriar, de reescrever – tarefa de sujeito e não de objeto. Desta maneira, não é possível a quem estuda, numa tal perspectiva, alienar-se ao texto, renunciando assim à sua atitude crítica em face dele.
[...]
A atitude crítica no estudo é a mesma que deve ser tomada diante do mundo, da realidade, da existência. Uma atitude de adentramento com a qual se vá alcançando a razão de ser dos fatos cada vez mais lucidamente.
[...]
Em última análise, o estudo sério de um livro como de um artigo de revista implica não somente uma penetração crítica em seu conteúdo básico, mas também uma sensibilidade aguda, uma permanente inquietação intelectual, um estado de predisposição à busca.
b) Que o ato de estudar, no fundo é uma atitude frente ao mundo.
[...]
c) Que o estudo de um tema específico exige do estudante que se ponha, tanto quanto possível, a par da bibliografia que se refere ao tema ou ao objeto de sua inquietude.
d) Que o ato de estudar é assumir uma relação de diálogo com o autor do texto, cuja mediação se encontra nos temas de que ele trata. Essa relação dialógica implica a percepção do condicionamento histórico-sociológico e ideológico do autor, nem sempre o mesmo do leitor.
e) Que o ato de estudar demanda humildade.
Considerações em torno do ato de estudar[1]
Paulo Freire
Revista Espaço Acadêmico, n.º 33, fev/2004, mensal, ISSN 1519.6186
http://www.espacoacademico.com.br/033/33pc_freire.htm
[...]
Estudar é, realmente um trabalho difícil. Exige de quem o faz uma postura crítica sistemática. Exige disciplina intelectual que não se ganha a não ser praticando-a.
[...]
Numa visão crítica, as coisas se passam diferentemente. O que estuda se sente desafiado pelo texto em sua totalidade e seu objetivo é apropriar-se de sua significação profunda.
Essa postura crítica, fundamental, indispensável ao ato de estudar, requer de quem a ele se dedica:
a) Que assuma o papel de sujeito desse ato.
[..]
Estudar seriamente um texto é estudar o estudo de quem, estudando, o escreveu. É perceber o condicionamento histórico-sociológico do conhecimento. É buscar as relações entre o conteúdo em estudo e outras dimensões do conhecimento. Estudar é uma forma de reinventar, de recriar, de reescrever – tarefa de sujeito e não de objeto. Desta maneira, não é possível a quem estuda, numa tal perspectiva, alienar-se ao texto, renunciando assim à sua atitude crítica em face dele.
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A atitude crítica no estudo é a mesma que deve ser tomada diante do mundo, da realidade, da existência. Uma atitude de adentramento com a qual se vá alcançando a razão de ser dos fatos cada vez mais lucidamente.
[...]
Em última análise, o estudo sério de um livro como de um artigo de revista implica não somente uma penetração crítica em seu conteúdo básico, mas também uma sensibilidade aguda, uma permanente inquietação intelectual, um estado de predisposição à busca.
b) Que o ato de estudar, no fundo é uma atitude frente ao mundo.
[...]
c) Que o estudo de um tema específico exige do estudante que se ponha, tanto quanto possível, a par da bibliografia que se refere ao tema ou ao objeto de sua inquietude.
d) Que o ato de estudar é assumir uma relação de diálogo com o autor do texto, cuja mediação se encontra nos temas de que ele trata. Essa relação dialógica implica a percepção do condicionamento histórico-sociológico e ideológico do autor, nem sempre o mesmo do leitor.
e) Que o ato de estudar demanda humildade.
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