terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Chomsky, muito além de lingüista, é um inquieto “reclamador” das questões sociais, políticas, econômicas. E o faz de modo indissociado, como são os contextos. Propala o desenvolvimento da organização e da autonomia das camadas marginalizadas ou manipuladas dos sistemas sociais, numa proposição humanista pós-estruturalismo. Suas idéias contra a sociedade de massa, a manipulação dos sistemas de comunicação, assim como seu enfoque sobre as relações de poder vão contornando e conformando suas análises. Falando em análise, algumas considerações interessantes de Chomsky* sobre a “exclusividade” do saber analítico dos pensadores e acadêmicos:

“Para analisar as ideologias, basta um pouco de abertura de espírito, de inteligência e um cinismo saudável. Todo o mundo é capaz de fazê-lo. Temos de recusar que só os intelectuais dotados de uma formação especial são capazes de trabalho analítico. Na realidade, isso é o que alguns nos querem fazer crer...”.

Outra questão, e que interessa aqui por ser precípua à educação, em especial à modalidade a distância (ainda que o texto seja anterior ao boom da EAD), diz respeito à autonomia, à ação do indivíduo aprendente no seu processo de crescimento cognitivo - sua busca incessante de apreensão da realidade, do seu contexto social, da cultural, das relações econômicas. De novo o autor estadunidense:

“[...] e principalmente “uma política de comunicações democrática, que deveria tentar desenvolver meios de expressão e interação que reflitam os interesses e as preocupações da população em geral, fomentem sua auto-educação e sua ação individual e coletiva.” (grifo meu)

Ao apontar o pseudoconfinamento do conhecimento nos currais da academia e da ciência, o pensador sabe que isso é apenas uma figura de retórica. E a desvela apontando a inapreensibilidade do saber, que está muito além do conhecimento acumulado, mas que se deve antes e acima à potencialização das capacidades analítico-reflexivas. E esclarece que não há pré-condição ou requisito para desenvolver-se intelectualmente e, afinal, situar-se de modo paritário na gestão das políticas sociais, interpessoais.

* CHOMSKY, Noam. In: SILVA, Jorge. Noam chomsky e as ilusões necessárias. Texto publicado no Anexo Cultural do jornal A Notícia (Joinville/SC), 1 de maio de 1996. http://www.igutenberg.org/jorge.html

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Excertos do texto proferido por Paulo Freire na abertura do Seminário Nacional sobre Educação e Reforma Agrária, Chile, 1968. O que nos aponta o texto converge para a "discussão" sobre inatismo, conhecimento, inteligência, aprendizagem, ... que travamos na aula do ESPEAD nesta noite (4/dez).


Considerações em torno do ato de estudar[1]

Paulo Freire

Revista Espaço Acadêmico, n.º 33, fev/2004, mensal, ISSN 1519.6186
http://www.espacoacademico.com.br/033/33pc_freire.htm

[...]
Estudar é, realmente um trabalho difícil. Exige de quem o faz uma postura crítica sistemática. Exige disciplina intelectual que não se ganha a não ser praticando-a.
[...]
Numa visão crítica, as coisas se passam diferentemente. O que estuda se sente desafiado pelo texto em sua totalidade e seu objetivo é apropriar-se de sua significação profunda.
Essa postura crítica, fundamental, indispensável ao ato de estudar, requer de quem a ele se dedica:
a) Que assuma o papel de sujeito desse ato.
[..]
Estudar seriamente um texto é estudar o estudo de quem, estudando, o escreveu. É perceber o condicionamento histórico-sociológico do conhecimento. É buscar as relações entre o conteúdo em estudo e outras dimensões do conhecimento. Estudar é uma forma de reinventar, de recriar, de reescrever – tarefa de sujeito e não de objeto. Desta maneira, não é possível a quem estuda, numa tal perspectiva, alienar-se ao texto, renunciando assim à sua atitude crítica em face dele.
[...]
A atitude crítica no estudo é a mesma que deve ser tomada diante do mundo, da realidade, da existência. Uma atitude de adentramento com a qual se vá alcançando a razão de ser dos fatos cada vez mais lucidamente.
[...]
Em última análise, o estudo sério de um livro como de um artigo de revista implica não somente uma penetração crítica em seu conteúdo básico, mas também uma sensibilidade aguda, uma permanente inquietação intelectual, um estado de predisposição à busca.
b) Que o ato de estudar, no fundo é uma atitude frente ao mundo.
[...]
c) Que o estudo de um tema específico exige do estudante que se ponha, tanto quanto possível, a par da bibliografia que se refere ao tema ou ao objeto de sua inquietude.
d) Que o ato de estudar é assumir uma relação de diálogo com o autor do texto, cuja mediação se encontra nos temas de que ele trata. Essa relação dialógica implica a percepção do condicionamento histórico-sociológico e ideológico do autor, nem sempre o mesmo do leitor.
e) Que o ato de estudar demanda humildade.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007


Minha proposta é observar e analisar, para aferir resultados e direcionar estratégias pedagógicas do EAD, o desenvolvimento da Autonomia dos Alunos em Formação.
Meu primeiro movimento é atualizar o conceito de Autonomia, buscando as leituras de diferentes e diversas áreas.
Abaixo, uma coletânea, como subsídio inicial:


http://pt.wikipedia.org/wiki/Autonomia
Autonomia
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Autonomia pode ter um sentido relativo à:
Ciência política;
Filosofia.
Autonomia em ciência política
Autonomia do grego, autos, por si só, mais nomós que pode ser duas coisas, lei, e ao mesmo tempo, território. No inglês o termo é devolution ou home rule). Em Ciência política, é a qualidade de um território ou organização de estabelecer com liberdade suas próprias leis ou normas. O conceito difere da soberania, uma vez que um Estado soberano tem plenos poderes sobre si próprio, em termos de representação diplomática internacional, enquanto na autonomia os poderes não são plenos.
"Autonomia Local" é o direito e a capacidade efectiva de as autarquias locais regulamentarem e gerirem, nos termos da lei, sob sua responsabilidade e no interesse das respectivas populações, uma parte importante dos assuntos públicos.
O termo autonomia é usado para indicar a concessão de poder por parte de um governo central em favor de um governo a nível regional ou local, segundo o princípio da subsidariedade, ou por, na época do Antigo regime, fazer a passagem da sucessão de um território a um herdeiro legítimo.
Muitas vezes os poderes autónomos são temporários e permanecem em última análise ao governo central. Os sistemas federais deferem o poder e as funções das entidades federais sob garantia da observância da Constituição ou das normas de âmbito constitucional.
Autonomia em Filosofia
Filosoficamente, o conceito de autonomia confunde-se com o de liberdade, consistindo na qualidade de um indivíduo de tomar suas próprias decisões, com base em sua razão individual.







Dicionário Eletrônico Houaiss/2007

autonomia

gr. autonomía 'direito de reger-se segundo leis próprias'; prov. sob infl. do fr. autonomie 'id.'; ver aut(o)- e –nomia

n substantivo feminino
1 capacidade de se autogovernar
1.1 Rubrica: termo jurídico.
direito reconhecido a um país de se dirigir segundo suas próprias leis; soberania
1.2 faculdade que possui determinada instituição de traçar as normas de sua conduta, sem que sinta imposições restritivas de ordem estranha
1.3 Rubrica: administração.
direito de se administrar livremente, dentro de uma organização mais vasta, regida por um poder central
1.4 direito de um indivíduo tomar decisões livremente; liberdade, independência moral ou intelectual
2 Rubrica: filosofia.
segundo Kant (1724-1804), capacidade apresentada pela vontade humana de se autodeterminar segundo uma legislação moral por ela mesma estabelecida, livre de qualquer fator estranho ou exógeno com uma influência subjugante, tal como uma paixão ou uma inclinação afetiva incoercível
Obs.: p.opos. a heteronomia
3 Rubrica: psicologia.
preservação da integridade do eu
4 distância máxima percorrível por um veículo, sem que haja necessidade de reabastecimento de combustível
4.1 Rubrica: termo aeronáutico.
espaço de tempo em que uma aeronave permanece no ar, em dada velocidade, até consumir quase todo o combustível [Uma parte pequena é deixada por segurança, para algum imprevisto.]
4.2 Rubrica: termo de marinha.
período em que um navio de guerra pode permanecer no mar, sem necessidade de ser abastecido [São levados em conta alguns fatores, como raio de ação, capacidade de transporte de suprimentos e aguada e capacidade das câmaras frigoríficas.]
5 Rubrica: tecnologia.
período de tempo em que um equipamento ou sistema pode manter suas características de funcionamento, sem a ação de agentes externos




http://www.faced.ufba.br/rascunho_digital/textos/38.htm

Fórum da Faculdade de Educação da Bahia

Autonomia sem liberdade não existe. E liberdade com limites, não é liberdade. E educação sem autonomia, não é Educação. Por que a Educação implica na possibilidade de reflexão, e não dá pra refletir sem autonomia, por que a reflexão é livre e sem limites. E quando tem limites no pensar, logo no agir, como se formar seres autônomos?

Rozane SuzartProfessora de Desenho e Plástica e programadora visual.e-mail:rozanesuzart@yahoo.com.brwww.faced.ufba.br/~marivaldo


A mente é vazia, enquanto realidade, mas cheia em potência como virtualidade. A liberdade e a autonomia estão no âmbito da potência da mente como virtualidade. Uma educação que pretenda liberdade e autonomia permitirá a expressão dos acontecimentos resultantes da atualização dessa potência da mente.
serpa serpa@ufba.br

lisandra lisandra.ferreira@ig.com.br

Estou realizando uma pesquisa sobre autonomia, melhor dizendo autonomia na gestão escolar,iniciei meu trabalho falando dos conceitos de autonomia, na definição de Kant, Piaget,Kamii, estou precisando melhorar meu trabalho, poderiame passar algumas informações ou site que posso encontrar algo mais sobre este assunto "Conceito de Autonomia".
obrigada Lisandra
joao jcmu@uol.com.br
ACHO QUE O QUE MEDE A QUALIDADE DE UMA ESCOLA ÉO GRÁU DE AUTONOMIA DE SEUS ALUNOS. PROCURE EMVIGOSTSKY.................

http://www.geocities.com/autonomiabvr/autono.html
Jornal eletrônico
AUTONOMIA: O QUE É E COMO FUNCIONA
Texto publicado em KAOS #0, 08/1997 (boletim aperiódico e experimental do Grupo Autonomia).
O que é autonomia? Quem são os autônomos? Antes de mais nada, é preciso dizer que autônomo significa "que ou quem se governa". Por isso, em contraposição às organizações hierárquicas e autoritárias, as mobilizações dos grupos autônomos têm sempre o indivíduo como protagonista.
A Autonomia não é uma ideologia, nem mesmo uma política, mas uma alternativa à política. Única tendência revolucionária que não se deixou rotular, monopolizar ou rebocar por velhos dogmas, clichês ou hábitos, a Autonomia se define como anticapitalista e antiautoritária, combatendo sem tréguas o patriarcado, o capital, o estado e todas as opressões ditas específicas.
Por autonomia entendemos uma luta pela transformação social, que realizamos desde a auto-organização como setores explorados. Nosso modelo e objetivo é a sociedade livre, sem classes, sem estado e sem capital; a sociedade autogerida, cujo princípio regulador é: de cada um segundo suas possibilidades, a cada um segundo suas necessidades.
[...]


http://www.angelfire.com/sk/holgonsi/index.autonomia3.html

"A IMPORTÂNCIA DA AUTONOMIA" *
HOLGONSI SOARES
Prof. Ass. Depto. De Sociologia e Política - UFSM
* Publicado no jornal "A Razão" em 25.06.98

"Se quisermos ser livres, ninguém deve poder dizer-nos o que devemos pensar" (Castoriadis).
O grande sociólogo Anthony Giddens, ao trabalhar as principais questões do debate ideológico contemporâneo, coloca-nos como central o conceito de "sociedade pós-tradicional", ou seja, aquela na qual o homem é obrigado a abdicar da rigidez das idéias, atitudes e tipos de comportamentos fundamentados no sistema de valores tradicionais. Esta é a sociedade na qual estamos vivendo, e cujas características são mais evidentes de acordo com a intensificação do processo de globalização. Como é da natureza da História, cada contexto histórico concreto coloca suas condições de sobrevivência. A vinte anos atrás, quando a hierarquia estava em alta exigia-se obediência cega, humildade e concordância. Hoje porém, na sociedade pós-tradicional, exige-se o oposto, e a autonomia é condição básica para conviver com os riscos, as incertezas e os conflitos dessa sociedade.
Inicialmente foi no mundo da produção, quando a racionalidade tecnológica colocou como pré-requisitos o domínio do conhecimento, a capacidade de decidir, de processar e selecionar informações, a criatividade e a iniciativa. Somente um indivíduo autônomo consegue manejar com estes elementos, que diferenciam radicalmente a fábrica pós-fordista da fordista. Porém ao mesmo tempo que estes pré-requisitos pressupõem indivíduos autônomos, acabam influenciando no desenvolvimento da autonomia dos mesmos. Dessa forma, a autonomia tornou-se uma necessidade material;mas não está mais restrita apenas à esfera da produção, e envolve agora todos os domínios da vida contemporânea.
Assim, é também uma necessidade emocional, uma vez que os indivíduos precisam desenvolver uma efetiva comunicação entre si, numa sociedade em que o diálogo molda a política e as atividades. A falta de autonomia no âmbito psicológico, obstaculiza as discussões abertas, gera violência e impede a manifestação plural; como diz a cientista social A'gnes Heller, "é uma afronta a autonomia do Outro". Portanto a autonomia psicológica é necessária para se entrar em efetiva comunicação com o Outro, num diálogo que ocupa um espaço público no qual "todas as facções discutem entre si numa relação simetricamente recíproca"(Heller), livres do uso da coerção e da retórica.
É uma necessidade sócio-cultural, uma vez que a nova sociedade traz, em suas contradições produtivas um amplo movimento cultural de superação de velhas concepções de mundo, exigindo uma nova direção das relações sociais e a elaboração de um novo comportamento chamado "reflexivo". Sob este aspecto, a autonomia torna-se necessidade política pois somente um indivíduo autônomo possui condições de entender as contradições do mundo globalizado, questionando-as e agindo no sentido de canalizar as oportunidades para mudanças qualitativas.
Por tudo isso a autonomia tornou-se condição de sobrevivência para os indivíduos na sociedade pós-tradicional. Somente um indivíduo autônomo terá sucesso nas esferas econômica, psicológica, sócio-cultural e/ou política, pois é um indivíduo que interroga, reflete e delibera com liberdade e responsabilidade, ou como diz Castoriadis, "é capaz de uma atividade refletida própria",e não de uma atividade que foi pensada por outro sem a sua participação. Espero que todos os envolvidos com o processo educativo (formal e informal) reconheçam a importância da mesma, e estejam trabalhando para favorecer a autonomia individual e consequentemente coletiva, pois é assim que nos tornaremos "conscientes e autores de nosso próprio evolver histórico" (Castoriadis).
http://www.lesley.edu/journals/jppp/2/review_port.html


Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia - Saberes necessários `a prática educativa. São Paulo, Brasil: Paz e Terra (Colecção Leitura), 1997. Edição de bolso, 13,5x10 cm., 165 páginas.
Caetano Valadão Serpa, Ph.D. and Maria de Lourdes B. Serpa, Ed D

Presidente Clinton no seu discurso de 1997 ao Congresso dos Estados Unidos focou a Educação como primeira prioridade no seu plano de acção para o seu segundo mandato. A seguir, em A Call to Action For American Education, o Presidente dos Estados Unidos refere-se a várias áreas de acção incluindo a formação de docentes mas esta é feita duma maneira generalizada. No entanto, a formação de professores e professoras adequada as necessidades actuais, é um dos alicerces fundamentais a todo o processo de reforma educativa, dada a mudança demográfica nas escolas dos EU. Os educandos actualmente provêem duma sociedade multicultural com uma diversidade de famílias, culturas, raças, línguas e níveis socio-economicos... A todos devemos um sistema educativo eficiente e respeitador, que os prepare eficazmente para as realidades academicas, profissionais e sociais do século XXI.
Esta é uma das razões porque achamos o último livro do mui estimado Professor Paulo Freire a Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa resposta e contribuição essencial para o processo de formação de docentes nos Estados Unidos--e no mundo -- onde o sistema educativo nem sempre corresponde às necessidades dos alunos e alunas, especialmente, os menos favorecidos, por mais incrível que pareça. Este é um livro extraordinário que deve ser considerado como texto essencial de leitura e reflexão pelos responsáveis da educação e formação a todos os níveis.
A Pedagogia da Autonomia é um livro pequeno em tamanho, mas gigante em esperança e optimismo, que condena as mentalidades fatalistas que se conformam com a ideologia imobilizante de que "a realidade é assim mesmo, que podemos fazer?" Para estes basta o treino técnico indispensável `a sobrevivência. Em Paulo Freire, educar é construir, é libertar o ser humano das cadeias do determinismo neoliberal, reconhecendo que a História é um tempo de possibilidades. É um "ensinar a pensar certo" como quem "fala com a força do testemunho". É um "ato comunicante, co-participado", de modo algum produto de uma mente "burocratizada". No entanto, toda a curiosidade de saber exige uma reflexão crítica e prática, de modo que o próprio discurso teórico terá de ser aliado à sua aplicação prática.
Ensinar é algo de profundo e dinâmico onde a questão de identidade cultural que atinge a dimensão individual e a classe dos educandos, é essencial `a "prática educativa progressista". Portanto, torna-se imprescindível "solidariedade social e política para se evitar um ensino elitista e autoritário como quem tem o exclusivo do "saber articulado". E de novo, Freire salienta, constantemente, que educar não é a mera transferência de conhecimentos, mas sim conscientização e testemunho de vida, senão não terá eficácia.
Igualmente, para ele, educar é como viver, exige a consciência do inacabado porque a "História em que me faço com os outros (...) é um tempo de possibilidades e não de determinismo"(p.58). No entanto, tempo de possibilidades condicionadas pela herança do genético, social, cultural e histórico que faz dos homens e das mulheres seres responsáveis, sobretudo quando "a decência pode ser negada e a liberdade ofendida e recusada"(p.62). Segundo Freire, "o educador que 'castra' a curiosidade do educando em nome da eficácia da memorização mecânica do ensino dos conteúdos, tolhe a liberdade do educando, a sua capacidade de aventurar-se. Não forma, domestica"(63). A autonomia, a dignidade e a identidade do educando tem de ser respeitada, caso contrário, o ensino tornar-se-á "inautêntico, palavreado vazio e inoperante"(p.69). E isto só é possível tendo em conta os conhecimentos adquiridos de experiência feitos" pelas crianças e adultos antes de chegarem `a escola.
Para Freire, o homem e a mulher são os únicos seres capazes de aprender com alegria e esperança, na convicção de que a mudança é possível. Aprender é uma descoberta criadora, com abertura ao risco e `a aventura do ser, pois ensinando se aprende e aprendendo se ensina.
Como já referimos, embora o pano de fundo para Paulo Freire seja o Brasil, a sua filosofia de educação é um clamor universal em favor da esperança para todos os membros da raça humana oprimida e descriminada. Neste sentido, afirma que qualquer iniciativa de alfabetização só toma dimensão humana quando se realiza a "expulsão do opressor de dentro do oprimido", como libertação da culpa (imposta) pelo "seu fracasso no mundo".
Por outro lado, Freire insiste na "especificidade humana" do ensino, enquanto competência profissional e generosidade pessoal, sem autoritarismos e arrogância. Só assim, diz ele, nascerá um clima de respeito mútuo e disciplina saudável entre "a autoridade docente e as liberdades dos alunos, (...) reinventando o ser humano na aprendizagem de sua autonomia"(p.105). Consequentemente, não se poderá separar "prática de teoria, autoridade de liberdade, ignorância de saber, respeito ao professor de respeito aos alunos, ensinar de aprender"(pp.106-107).
A idéia de coerência profissional, indica que o ensino exige do docente comprometimento existencial, do qual nasce autêntica solidariedade entre educador e educandos, pois ninguém se pode contentar com uma maneira neutra de estar no mundo. Ensinar, por essência, é uma forma de intervenção no mundo, uma tomada de posição, uma decisão, por vezes, até uma rotura com o passado e o presente. Pois, quando fala de "educação como intervenção", P. Freire refere-se a mudanças reais na sociedade: no campo da economia, das relações humanas, da propriedade, do direito ao trabalho, `a terra, `a educação, `a saúde(...)"(p.123), em referência clara `a situação no Brasil e noutros países da América Latina.
Para Freire, a educação é ideológica mas dialogante e atentiva, para que se possa estabelecer a autêntica comunicação da aprendizagem, entre gente, com alma, sentimentos e emoções, desejos e sonhos. A sua pedagogia é "fundada na ética, no respeito `a dignidade e `a própria autonomia do educando"(p.11). E é "vigilante contra todas as práticas de desumanização"(p.12). É necessário que "o saber-fazer da auto reflexão crítica e o saber-ser da sabedoria exercitada ajudem a evitar a "degradação humana" e o discurso fatalista da globalização", como ele tão bem diz.
Para Paulo Freire o ensino é muito mais que uma profissão, é uma missão que exige comprovados saberes no seu processo dinâmico de promoção da autonomia do ser de todos os educandos. Os princípios enunciados por Paulo Freire, o homem, o filosofo, o Professor que por excelência verdadeiramente promoveu a inclusão de todos os alunos e alunas numa escolaridade que dignifica e respeita os educandos porque respeita a sua leitura do mundo como ponte de libertação e autonomia de ser pensante e influente no seu próprio desenvolvimento.
A Pedagogia da Autonomia é sem dúvida uma das grandes obras da humanidade em prol duma educação que respeita todo o educando (incluindo os mais desfavorecidos) e liberta o seu pensamento de tradições desumanizantes - porque opressoras.
A esperança e o optimismo na possibilidade da mudança são um passo gigante na construção e formação científica do professor ou da professora que "deve coincidir com sua retidão ética" (p18). Paulo Freire, um Professor e filósofo que através da sua vida não só procurou perceber os problemas educativos da sociedade brasileira e mundial, mas propôs uma prática educativa para os resolver. Esta ensina os professores e as professoras a navegar rotas nos mares da educação orientados por uma bússola que aponta entre outros os seguintes pontos cardeais:
a rigorosidade metódica e a a pesquisaa ética e estéticaa competência profissional,o respeito pelos saberes do educando e o reconhecimento da identidade cultural,a rejeição de toda e qualquer forma de discriminação,a reflexão crítica da prática pedagógica,a corporeiificação,o saber dialogar e escutar,o querer bem aos educandos,o ter alegria e esperança,o ter liberdade e autoridadeo ter curiosidadeo ter a consciência do inacabado...
como princípios basilares a uma prática educativa que transforma educadores e educandos e lhes garante o direito a autonomia pessoal na construção duma sociedade democrática que a todos respeita e dignifica.
Nota FinalNão podemos deixar de reconhecer que além da riqueza intelectual de idéias que serão a base de muitos diálogos e reflexões, este livro é escrito tal como outros do mesmo autor, numa linguagem não sexista o que é raro ver-se nas publicações em língua portuguesa. Paulo Freire demonstra a todos os falantes da língua portuguesa, acostumados à maneira masculina de ver o mundo, a qual tem mantido invisível metade da humanidade - os seres femininos, que a língua Portuguesa também nos proporciona as possibilidades do uso de linguagem que respeita a comparticipação visível e dignificante da mulher no mundo actual. Para Paulo Freire não existe unicamente o homem, o professor, o aluno, o pai mas também a mulher, a professora, a aluna, a mãe!

sábado, 27 de outubro de 2007

Esvazia-se o sentido da escola. De tão ausente do universo dinâmico que tece a fábula da existência, ela não soube se reconstituir, ainda. Certo que necessária, uma vez que pelo mínimo se substrai dela reconhecimento.
O gerenciamento contínuo que nos demanda o conhecimento e a presenvação de valores e conceitos de coexistência; o saber para fazer melhor, para resolver o que for, para sobreviver.





sábado, 13 de outubro de 2007

O Trabalho do Professor e as Novas tecnologias _ Artigo da revista Textual /set (do Sinprors)

O Trabalho do Professor e as Novas Tecnologias

O texto de Eliane Schlemmer, publicado na revista Textual de setembro http://www.sinprors.org.br/textual/set06/artigo_tecnologia.pdf, apresenta de cara a transcrição de um texto em internetês. Creio que o faz mais para desafiar posições, que no geral tendem a enquadrá-lo no elenco das noções reativas – nossa posição epistemológica é checada no primeiro impacto – que para sua decodificação.

A passagem da Era Analógica para a Digital, da “geração do não mexe que estraga” para a do “mexe pra ver como funciona” pressupõe, segundo a autora, outro modo de estar no mundo, de conviver com as tecnologias – e cita Castells, a respeito do conceito de “cultura da virtualidade real”.

Denomina-nos, os contemporâneos dessa passagem de eras, de “imigrantes digitais” (autodenunciados pelo forte sotaque analógico); os nascidos sob esse novo marco, de “nativos digitais”.

As vantagens do novo tempo, com as Tecnologias Digitais (TDs), seriam as trocas, o compartilhar conhecimentos, idéias, experiências, o desenvolver projetos.

Perguntas interessantes depreendidas do artigo:

Qual o nosso espaço nesse mundo tecnológico?
Como compreendemos os TDs no contexto da nossa prática pedagógica?
Por que o aluno copia trabalhos da Internet?
(Sobre isso, não seria melhor perguntar:) Qual o objetivo desse trabalho? De que forma contribui para a aprendizagem?
Será que um trabalho cujo conteúdo possa ser literalmente copiado da Internet pode ser considerado um trabalho que mobiliza o sujeito a pensar, a refletir sobre a informação, a articular as diferentes áreas do saber, a estabelecer relações para poder desenvolvê-lo?
Ou será que é um trabalho que prioriza somente a informação?

Aponta o fato de a informação estar em quantidade na web, mas o conhecimento não; este depende do sujeito, das relações que estabelece entre o que conhece, a nova informação e a problemática que precisa ser solucionada.

As TDs devem estar a serviço da autonomia, da autoridade, da cooperação, do respeito mútuo, da solidariedade interna, em suma, o que se entende por competências. A isso somam-se: o entender o que aprendemos, o refletir sobre o próprio processo de aprender (metacognição) – procedimentos de motivo interno, ainda que seja uma construção compartilhada.

Há um rompimento dos paradigmas de Tempo, Espaço, Presença, DISTÂNCIA, Interação, Informação, Conhecimento. Tem-se de estabelecer um novo código de relações (HETERARQUIA): em que o complementar e o antagônico coexistam.

Afirma ainda que

“a formação docente precisa ser repensada em função das novas relações que emergem de recentes paradigmas da cultura tecnológica”.

Por fim, sugere que se evite um “gap”, um abismo entre os Analógicos (e a escola no geral conserva-se por aqui) e os Digitais, num tempo que se “estica”, multissíncrono.

O artigo é um bom provocador de discussões, ainda que apresente uma série de tópicos sem aprofundá-los – seu propósito é mais o de despertador que o de escafandrista, mesmo. De qualquer modo, sua virtude está na tematização da mudança de paradigma, apontando para um furo que é bem mais embaixo. Pressupõe novas formas de construção do pensamento, do sentir e do agir. Do construir, do dividir, do ser. Teremos de inventar novos shakespeares para dar conta disso?? Novos hamlets??

(Pro)Ponhamo-nos a pensar. E a agir!
Este link PORTA CURTAS é para o acesso a filmes curta-metragens brasileiros e à programação de eventos de cinema por aí.
artigo da revista Textual O trabalho do professor e as novas tecnologias

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Tomemos a cena em que o mais idoso dos jurados, o número 9, coloca em dúvida o depoimento da testemunha identificada como “o velho que morava no apartamento de baixo, que ouviu o rapaz jurar de morte o pai e viu o criminoso sair correndo”. Este jurado, que também enfrenta dificuldade de expressar-se devido à falta de respeito de alguns jurados, argumenta pela impropriedade do depoimento, uma vez que a testemunha demonstrava claramente necessidade de ser ouvido, de ocupar um lugar de relevância no ambiente social, de poder ter voz – essa fala do jurado vai evidenciando, em auto-análise, a sua própria condição: “Senhores, é uma coisa triste não ter expressão alguma”. Daí a evidência de cada jurado estar falando, quando não de si mesmo, do seu lugar social – e não do lugar do réu, como deveriam. Parece-me que as evidências se aproximam da possibilidade (ou verdade) quando consideradas conforme a posição do outro, quando sabemos nos colocar no lugar social do outro. Nem todos os jurados aceitam o que esse jurado aponta, e permanecem tomando o velho por incapaz. A relação entre as personalidades confinadas, debilitadas pelo calor que antecede a chuva purificadora, vai revelando diferenças. Com elas, a transposição do universo particular para a leitura dos fatos, reforçando a idéia de que não há verdades, mas interpretações. As evidências, especulações, integralizam-se nas argumentações – que no caso servem para reiterar o status quo, a segregação. Entendo que evidências podem consolidar (hipó)teses, mas tais elementos necessitam de uma construção a partir de reflexões, preferencialmente as que consideram situações e condições variadas. E uma descrição minuciosa dos fatos, o que se denomina ‘écfrase’, tem de obrigatoriamente ser realizada. É, pois, nessa dialética de ponderações que se chega o mais próximo da verdadeira natureza dos fatos.

sábado, 29 de setembro de 2007

29/09/2007 00:12:33
Antônio Paim Falcetta
Doze Homens e uma Sentença - primeiras palavras.
Antes de apresentar uma evidência - e para isso creio necessitar de algumas hipóteses e de uma tese -, me pareceu interessante trazer para reflexão alguns aspectos sobre os procedimentos argmentativos: evidências, construções de \"verdades\", construção de pensamento e posicionamentos.
São eles:
a) As evidências não são absolutas; quando analisadas nas suas menores partes, podem sugerir outros enfoques, outras leituras.
b) Os argumentos não se descolam das experiências; partem de ângulos definidos, relacionados às visões de mundo e à trajetória daquele que se posiciona.
c) A retórica da argumentação pode partir de apelos emocionais, radicais (preconceituosos), dialéticos, fóbicos (traumas).
d) A constituição da(s) verdade(s) apoia-se em generalizações nem sempre construídas sobre argumentos sólidos. Assenta-se mais sobre o (auto)convencimento. Daí a necessidade de evidências - que, como já vimos, são utilizadas de modo a responder aos interesses do argumentador.
e) É necessário colocar-se no lugar do outro, no caso da análise dos comportamentos. Essa aproximação deve levar em conta, o máximo possível, o universo daquele que é observado.
f) Para um estudo científico, não há como haver verdades \'a priori\'. É necessário sempre procurar-se a composição dos fatos, ou melhor, da possibilidade dos fatos.
g) O que move, portanto, a argumentação é a necessidade de se marcar uma posição, em resposta aos motivos internos que nos organizam a partir dos dados da nossa experiência.
h) A posição mais próxima da verdade - que não há! - é sempre aquela que relativisa, que não parte de posições rígidas, mas que especula, que procura investigar além da superfície das primeiras e fáceis evidências.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A experiência da (re)descoberta do prazer nas experiências em Educação no Pead vem fortalecendo meu sentimento de estar vivo, enquanto educador. O entendimento do processo, o sentir-me em desafio constante vão constituido esse ser/estar em movimento. Se não nos banhamos duas vezes nas mesmas águas do rio é porque não há o mesmo nem nas águas nem em nosso corpo; e esse é o sentido dos processos de aprendizado: o da aceitação do que está além do mesmo. Tem-se de ter consciência de que nem a nossa continuidade lógica, aparentemente estável e supostamente coerente, garante a permanência. E é nessa dinâmica que reside o educar(-se). Que implica (re)fazer. Que implica ser.